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Redação na escola - Artigo 4


Correção de redação na escola
por Cristina Ramos


Não pense o leitor que vou enveredar-me pelos caminhos daquele martelinho que vai desmontando os problemas gramaticais - falta de acento, uma falta de concordância, falta de ponto e vírgula. Nada disso. Quando digo estranhamento, sigo literalmente o significado da palavra. Estou falando da ocorrência, no enunciado, de algum elemento inesperado pelo leitor (maduro ou não) em face de suas expectativas em relação à própria enunciação do texto como um todo e não daqueles embaraços advindos das dificuldades típicas de leitura relacionadas à falta de informação do leitor sobre o tema, ou ainda à sua falta de intimidade com as formas de dizer (formas lexicais ou estruturas linguísticas). Isso tudo, no meu ponto de vista, é importante, mas secundário.

Para poder resolver seu problema de interpretação, o leitor recorre, além dos dados co-textuais (do texto), a dados contextuais, isto é, a seu conhecimento de mundo, conhecimentos prévios e conhecimentos de outros textos. Isso, para o leitor, é fundamental, pois são esses dados que lhe permitem buscar pistas ou seguí-las, pistas essas fornecidas pelo próprio texto, que lhe permitirá a identificação de um necessário preenchimento de lacunas, ou a percepção de indícios nele presentes para a significação pretendida pelo autor.

Em se tratando de correção de redações produzidas por alunos de nível fundamental e médio, o leitor-professor muito dificilmente irá deparar com desalinhamentos, até porque isso exigiria dos nossos produtores aprendizes um conhecimento apurado das estratégias de dizer - e este não é o caso. Parece-me que o estranhamento de leitura típico da tarefa de correção com a qual lidam os professores pode ser entendido em termos da noção de lacuna, isto é, pela falta de transparência intrínseca de todo o texto. Como já deixamos subentender, todo texto é, em princípio, aberto de significados, podendo esse grau de abertura ser maior ou menor, em cada caso. É esse o motivo de nossa afirmação acima sobre a importância do contexto.

Quando lê uma redação escolar, o professor certamente depara com lacunas de várias ordens, tal qual um leitor comum. E isso o faz buscar no contexto e no co-texto as informações que lhe permitem seguir as pistas deixadas pela redação acerca de sua significação. Porém, ao assumir o papel de corretor, que institucional e socialmente lhe é atribuído (quando ele se coloca como um leitor diferenciado), o professor tenta, por meio da correção, exigir do aluno produtor uma postura de transparência total, solicitando que este resolva todas as opacidades do texto, atitude impossível não só para o aluno como também para qualquer produtor de textos.

Assim, acho que deveriam ser as estratégias textuais o tipo de chave por excelência mais elicitado pelo professor-corretor durante a intervenção escrita. Além de serem também aquelas que o aluno produtor-leitor deveria lançar mão ao revisar o próprio texto em nome de uma maior legibilidade, isto é, da menor opacidade possível - e desejada - desse texto, considerado as condições tanto de produção (o nível e a maturidade linguística desse aluno) como de recepção (o grau de exigência do professor).

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