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Redação na escola - Artigo 4


Correção de redação na escola
por Cristina Ramos


Acredito que o conceito de problema ou infração não pode ser definido apenas em termos de produção textual, pois falar em problema de redação implica falar de problema de leitura, isto é, de recepção do texto. Embora uma sequência linguística tenha sido produzida num momento específico, chamado de produção, essa ocorrência só poderá ser considerada problemática se provocar um estranhamento no momento da leitura. Isso pode ser provado pelo fato de que não raras vezes, os produtores de texto fazem eventuais alterações (tanto no mesmo momento da leitura quanto posteriormente) a cada vez que lêem e monitoram sua leitura. Inserido no produtor há, portanto, um leitor, que se confunde com ele no ato da produção e leitura - os papéis são trocados, o produtor transforma-se em leitor e vice-versa - são o mesmo indivíduo. Faço questão de, sempre que posso, lembrar meus alunos que, se lerem dez vezes os seus textos, dez vezes modificá-los-ão. Acho que vale a pena lembrar de Hipócrates e sua história do homem que entra num rio várias vezes: nunca o homem será o mesmo que entrou pela primeira vez e o rio ter-se-á modificado tantas vezes quanto for penetrado. Conforme diz Ruiz (2001:28), o autor é o primeiro leitor de si mesmo.

Essa frase parece muito complicada, mas não é. Fica fácil entendermos a afirmação da autora, se tomarmos Bakhtin (1997) e suas concepções de outro e de acabamento, dentro do princípio dialógico que funda a sua concepção de linguagem. Para tal autor, o dialogismo é a condição da constituição do sujeito e do sentido do texto. Trocando em miúdos, o autor de um texto, isto é, o acadêmico, no momento da escrita, transforma-se em sujeito do discurso e deixa-se dominar pelo outro, que é, na realidade quem escreve o texto. Assim, como diz Bakhtin, todo discurso é elaborado em função do outro, pois é o outro que condiciona do discurso do eu. Assim, o que atribui um sentido totalizante ao texto, portanto, é a virtualidade, o acabamento que é atribuído ao eu-autor-acadêmico, pelo outro.

Desse modo, é na hora da leitura, atividade inerente a todo processo de produção de textos, que surgem problemas de produção. Isso acontece quer intrinsecamente, pela interferência do outro, constitutiva do eu que escreve e que lê o próprio texto enquanto o produz, quer ocorra em momento posterior e diverso do momento da criação, pela atuação do eu que lê o próprio texto, por ele dado como acabado, ou pela interferência de um outro, que lê o texto do eu.

Sendo assim, penso que se pode considerar problema de produção textual, toda e qualquer sequência linguística que gere um estranhamento para o leitor, não apenas em função do tipo do texto, mas também dos objetivos visados na interlocução e das condições de produção e de recepção desse mesmo texto. A questão, agora, é saber de que estranhamento se trata.

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